Viña del Mar e Valparaíso, um contraste de vizinhas

Era um dia de sol, perfeito pra se conhecer as duas cidades. Ainda assim, amanheceu um pouco frio e lá fomos nós, encasacados. Saímos cedo e às 8h15 estávamos na estação de metrô Santa Lucia. Pra nossa surpresa, estava fechada, quando deveria estar aberta desde 8h. Ficamos putos, sem saber o que fazer. Um casal de brasileiros estava por ali e haviam se informado que era possível pegar o ônibus 412 (talvez o número não seja mesmo esse, é o que me lembro, confira) para ir até o terminal.

Pegamos juntos o ônibus. Após passar a Estação Central, vimos que estava perto de saltar. O casal resolveu saltar ali, pois tinham sido informados pelo proprietário do hotel que aquela seria a estação. Disse a eles que não era, segundo nossa pesquisa, mas não deram bola. Pois bem, confirmamos a informação com um senhor que estava no ônibus e saltamos um ponto depois, na estação Universidad de Santiago. Bingo, em frente ao terminal.

Primeiro nos dirigimos à Turbus, que tinha os preços mais caros. Aí fomos na Pullman. Compramos ida e volta pra Valparaíso, com partida às 8h. Opa, como assim, se já eram 8h30 ? Só no nosso relógio. O horário de verão havia acabado e só nós, brasileiros, não fomos informados. O que tinha de brasileiro desinformado na estação não era brincadeira. Pra variar, como disse, parece que o povo do Chile é brasileiro.

Acertamos o relógio e pegamos o ônibus às 8h. Confortável, mas com um “perfume” desagradável, vindo do banheiro. Ê, povo cagão. Dizem que brasileiro só faz merda, provavelmente foi algum de nós. Pois bem, o busão pegou a estrada e fui observando. Estava com sono, mas não ia conseguir dormir. É possível ver várias comunidades, que possuem nomes destacados como esse aí, em letreiros que parecem os de Hollywood. Do outro lado é possível ver belos vinhedos, pois no caminho há dezenas de vinícolas, pertencentes ao Vale Casablanca.

Ótima opção pra quem vai de carro. Porém, creio que visitar várias vinícolas e ainda Viña e Valpo seja muita coisa pra um dia só. Creio ser uma opção melhor pra quem vai pernoitar em uma das cidades. Chegamos na rodoviária de Valparaíso. Achei que seria abordado por várias pessoas me oferecendo serviços, tal qual achei que ocorreria quando cheguei ao aeroporto de Santiago. Mas isso não ocorreu. Fui atrás de opções. No centro de turismo, logo ao lado de onde desembarcam os ônibus, você pode pegar um mapa gratuitamente.

Vi um quiosque de uma agência oferecendo o city tour e uma mulher se adiantou, oferecendo os serviços. Foi mais fácil do que pensei, pois ela era simpática e aceitou negociar numa boa. Explicou por onde passava o tour, incluindo Valparaíso, Viña del Mar e Reñaca, que é um lugar com praias, onde fica o Museu Fonck. Fechamos o passeio e lá fomos pra van.

No caminho, um taxista piscou o olho e disse de forma enigmática “cuidado com essa gente”. Que sacana. Provavelmente era concorrente. Não sei bem o que poderia ter nos acontecido, se eu ficasse de paranoia nunca contrataria nenhum serviço em lugar algum, pois a empresa tinha um escritório fixo no terminal.

Pois bem, fomos recebidos pelo guia, que parecia o cara do filme “um morto muito louco”. O cara ia explicando tudo num espanhol o mais pausado possível. O engraçado é que ele falava como se estivesse lendo algo, claramente era tudo decorado, hehe. Começou pelas curiosidades sobre a cidade, número de habitantes, que 80 % viviam nos morros, mas que não eram favelas e as habitações tinham agua, luz e saneamento básico.

Pouco adiante paramos no porto, para encontrarmos uma família de 4 brasileiros, que havia contratado o tour e nos aguardava. Ali vimos leões marinhos tomando sol numa plataforma, essa do video. O guia explicou que a maré muda ao longo do dia e que eles ficam ali desde a cheia, até a maré encher de novo. Seguimos o passeio com a van e avistamos os trolles, que são ônibus elétricos que operam na cidade, estes da foto.

Passamos por alguns pontos que o guia foi explicando, mas não consegui ouvir direito, pois ficamos no fundão da van. Como a tal da família pegou o city tour antes, puderam sentar na frente, perto do guia. Pudemos ver no caminho alguns trabalhos de arte, grafites e, claro, pixações, infelizmente. Ao menos pra nós, pois sempre há o pseudo-intelectual que acha que isso é arte. Lembra da pessoa que pixou uma galeria de arte e ficou revoltada porque foi presa ? Ela dizia que aquilo era arte. Que vontade de fazer arte também e pixar a cara dela. Pois é, há gosto pra tudo, pra alguns até bosta é arte. Mas farei a seguir uma ressalva a respeito de pixações.

Em alguns casos, a pixação consegue se harmonizar com o ambiente, reforçando suas características. Valparaíso não seria a mesma se fosse 100 % limpinha. O problema é que nem sempre existe essa preocupação dos pixadores. Na verdade, acho até que essa preocupação nunca existe, mas sem querer acaba parecendo interessante aos olhos de quem vê. Eu achei essa aí uma boa composição (ok, sinta-se livre para discordar, hehe).

Paramos na La Sebastiana, casa construída para a segunda esposa de Pablo Neruda. Já havíamos conhecido em Santiago a La Chascona, casa da terceira esposa e faltou conhecer uma que fica em Isla Negra, onde há a casa da primeira esposa. Isla Negra fica ali perto de Valparaíso e faz parte do roteiro de muita gente, mas não teve apelo suficiente pra nos convencer. É possível tirar fotos da janela da casa para fora e você pode conferir na foto um bom panorama das casas coloridas da casas coloridas da cidade, no morro.

Houve algumas diferenças nessa visita, em relação à que fizemos a La Chascona. Primeiro, não há guia, mas, sim, audio-guia, que já está incluso no preço. Você recebe um mapa da casa com indicações de que número apertar no aparelho, que é fácil de mexer. A vantagem é que há opção de guia em português do Brasil, ao passo que em La Chascona as opções eram apenas inglês e espanhol.

A casa é interessante e também revela a paixão do poeta por artigos náuticos. Estava muito mais cheia do que La Chascona, pois não há controle de número de pessoas que entram e saem. Fica um inferno, eu preferiria que houvesse um limite. Fazer o que, estão interessados apenas na nossa grana. Não são permitidas fotos, mas devido ao grande número de pessoas, houve ocasiões que esse controle foi frouxo e aproveitamos. No detalhe, foto do bar. Tiramos outras, mas não ficaram muito boas, já que não havia tempo para preparar a câmera. Como sempre vez ou outra um sem noção tirava fotos com flash, isso é que mata a arte da foto roubada. Ah, esses amadores …

A visita durou uns 30 minutos, mas não há limite de tempo. Voltamos pra excursão e paramos perto de uma igrejinha, onde se pode ver à distância um cemitério onde só foram enterrados ingleses. Dizia o guia que eram trabalhadores que ajudaram a construir a cidade. Seguimos caminhando mais um pouco, pois até então a visita se limitava ao que vimos na van e na casa de Neruda. Mostrou um hotel, cuja importância já não me lembro e comentou que as casas eram feitas de sobras de materiais utilizados no porto. As chapas são galvanizadas e dificultam a transferência de calor, de modo que no frio a temperatura interna se mantem quente e vice-versa. Interessante.

Outro aspecto interessante é um dos traços marcantes da cidade, as casas coloridas. Explicou que isso ocorre para que sejam únicas numa rua, de modo que ficava mais fácil para o carteiro entregar as correspondências, já que havia um problema com o sistema de numeração, isso já não lembro. Ou seja, cada casa era de uma cor e o carteiro se guiava – essa é pra entregar na casa amarela da rua X. Estranho, parece papo de pescador, mas sou turista e meu papel é acreditar em todas as coisas que o guia fala e mostrar cara de quem está muito interessado. Da janela de uma dessas casas coloridas, um gato chileno espionava a minha gata, crente que teria alguma chance. Mal sabe ele que já enfrentei leões, o leitor é testemunha.

Voltamos de carro e passamos pela Plaza Sotomayor, supostamente a praça mais famosa da cidade, onde pudemos ver esse prédio interessante, construído parte em arquitetura romana, parte moderna. Não era possível parar na praça, devido ao fluxo de carros. A construção eve ter algum significado especial, mas na minha opinião seria uma boa representação do que é uma excursão a Valparaíso e Viña del Mar, unindo o charme da antiguidade com a beleza da modernidade. Falei bonito, pode dizer.

Perto dali, pegamos o ascensor Artillería. Os ascensores são espécies de funiculare para levar os moradores até a parte alta da cidade. Se não me engano custavam 300 pesos, equivalente a R$ 1,20. A subida é muito rápida e nos leva até o Paseo 21 de Mayo, caminho arborizado, cheio de barraquinhas de artesanato. Mas é pra inglês ver, tudo caro, bem mais caro do que vimos nas lojinhas do Patio Bellavista, em Santiago. Dali do Paseo é possível ver uma bela vista panorâmica do porto. Entretanto, achei o lugar turístico demais, não combina com o resto da cidade. É artificial e já estava entediado de ter que esperar 20 minutos pra que a mulherada terminasse de ver o artesanato. Passado esse tempo, descemos de van.

Era hora de irmos a Viña del Mar. A primeira parada é o Reloj de Flores, símbolo da cidade. Muito bonito. Explica o guia que o relógio fica com diferentes cores ao longo do ano, por causa da mudança de estações. Estávamos no outono.
Já ficávamos verdes de fome e aí veio a arapuca. Já sabia que os guias tentavam nos levar a restaurantes caros e ruins, onde eles tinham um conchavo com o dono. Mas eu tinha esperança de ir pra outro ali do lado. Só que muito esperto, o guia nos levou a um que não tinha nada próximo. E os outros 4 brasileiros que estavam conosco nem se manifestaram.

Meu temor se concretizou. O restaurante era uma merda. Caro, com atendimento horroroso, lento e atrapalhado. Um rapaz da outra família ficou sem almoço, pois se esqueceram do prato dele. Preço quase igual ao dos melhores restaurantes que fomos. Nos recusamos a pagar pelo serviço e reclamamos com o guia, que obviamente fez ouvido de mercador. Saímos do restaurante um pouco antes dessa família e tiramos algumas fotos na praia de Reñaca, que fica em frente ao restaurante.

Seguimos o passeio, com o guia só mostrando pelo carro o que era Viña del Mar e Reñaca. Na foto, um símbolo de Reñaca. Já sabia que seria mais ou menos assim, quando contratamos o passeio a previsão era de 5h e já passava disso, ele teria que correr. Nos levou até o estádio onde o Brasil jogou na Copa de 62, mas mais uma vez não paramos pra fotos, só deu pra bater uma do nome do estádio (Salsalito), de dentro da van mesmo. A impressão que tivemos é que Viña del Mar é uma cidade praiana comum, sem grandes diferenciais. É parecida com Punta del Este, cidade pra ricos morarem em frente à praia, com seus prédios luxuosos. Acabamos gostando mais de Valparaíso.

Passamos em frente ao Cassino e a um palácio cujo nome não me lembro. Vimos umas carruagens, provavelmente para turistas. Finalmente chegamos a um dos lugares que mais queria conhecer, ao menos de fora – o Museo Fonck. Pois é lá que se encontra o único exemplar de Moai que fica fora da Ilha de Páscoa. Bem legal, só achei que fosse maior, esse deve medir uns 5 metros, fazendo a devida comparação com o meu tamanho. Segundo pude pesquisar, existem na ilha de páscoa moais maiores, de até 20 metros. Bem, falta explicar o que é. Moai é isso aí da foto, pra quem não sabe, estátuas gigantes construídas pelo povo Rapanui. É um dos mistérios da humanidade, pois não se sabe exatamente o que eram. Não visitamos o Museo Fonck por dentro, pois não estava prevista a visita no passeio e já estava ficando tarde.

Ali, encontrei o único torcedor de um time brasileiro – o glorioso Botafogo. Nosso amigo deu sorte pro time, que na ocasião venceu o Vasco por 3 a 1 e avançou pra final do carioca. Pena que eu não tenha o encontrado de novo no domingo seguinte, quando perdemos de 4 a 1.

Ali, chegava ao fim o passeio. O guia disse que poderíamos pegar nosso ônibus na própria rodoviária de Viña del Mar, ainda que nossa passagem fosse com partida desde Valparaíso. Ficamos meio na dúvida, mas de fato isso era possível, trocamos as passagens. Pegamos o ônibus, com viagem tranquila e perdemos o pôr do sol, que deve ter sido bem bonito. Já estávamos cansados, após um dia inteiro de excursão. Voltamos pro ap e assim terminava nossa viagem, mas com uma boa surpresa, que relatarei no próximo post, o epílogo.

Dicas:

– confira a previsão do tempo e se planeje para ir a essas duas cidades num dia de sol.

– há duas empresas que fazem o trajeto, a Turbus e a Pullman. Não feche de cara com qualquer uma, consulte os preços das duas. Na época, a Pullman era mais barata. Comprando pela net é possível sair ainda mais barato, mas aí você corre o risco do tempo fechar no dia que comprou.

– para chegar não é difícil. Você pega o metrô linha 1 e salta na estação “Universidad de Santiago”. É preciso estar atento, pois há outras estações que começam com “universidad”. Saltando, pegue a saída mais ao norte e já estará de frente pro terminal Alameda, do lado de fora mesmo você já consegue ver os guichês das empresas. Compre ida e e volta, pedindo para deixar a volta em aberto. Tanto faz começar por Viña ou Valparaíso. Em abril/2012, custou 6500 pesos a passagem de ida e volta e a viagem leva aproximadamente 1h45.

– quanto mais cedo você chegar, mais vai aproveitar. Ideal é não passar das 10h, mas creio ser melhor chegar ainda mais cedo, pra quando acabar o tour você poder aproveitar a cidade.

– antes de fechar o passeio, negocie TUDO. Começando pelo preço, que por padrão custa 15 mil pesos e nós conseguimos por 13 cada, 3 pessoas. Grupos maiores provavelmente conseguiriam descontos ainda melhores.

– É possível fechar o passeio já em Santiago, mas não creio que seja jogo. É muito fácil ir por conta própria. Já lá em Valparaíso ou Viña também é possível conhecer a cidade por conta própria, naturalmente, mas creio que isso seja meio difícil. Valparaíso é montanhosa e você perderia muito tempo com deslocamentos. Ainda assim, se precisar, uma boa opção são os colectivos, que são carros compartilhados com destino pre-fixado, como se fossem as vans que pegamos aqui. Já em Viña não sei qual seria a melhor maneira de se transportar. Entre Viña e Valpo você pode fazer de metrô. As cidades são coladas uma na outra.

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4 respostas para Viña del Mar e Valparaíso, um contraste de vizinhas

  1. Danilo disse:

    ooohhohooo amigo… como andas ??… sou Danilo … o rapaz que estava com a familia junto na van no passeio… encontrei seu blog por acaso no google… muito bem escrito … boas dicas ….alguns toques …
    sobre ao centro … existem distintas arquiteturas em sotomayor. devido a grande imigração de europeus q se fixaram la devido ao grande movimento de mercadorias !
    sobre as cores de valparaiso…a história eh o seguinte…
    antigamente nao existia numero nas casas… entao como vc disse para o carteiro se localizar..
    pintavam paredes e janelas de cores distintas … exemplo.. casa azul com janela vermelha do cerro constituição… assim entao conseguia entregar as correspondencias ..
    que esteja bem amigo… um abraço

    • luademochila disse:

      Fala, Danilo ! Que mundo pequeno ! Coincidência interessante.

      Que bom que gostou do blog. Fiquei na dúvida agora sobre esse lance das cores das casas, será que não foi você quem falou ? Afinal, muitas coisas que aprendemos sobre Valparaíso foram justamente pelas suas explicações, já que muitas vezes não conseguíamos ouvir o guia. Você deveria escrever um blog também, já que conhece bastante de Santiago, faria sucesso.

      Prazer em “revê-lo”.

      Abraços de Marcos e Luciana.

  2. Alessandro Paiva disse:

    Ôba! Esse post vai ajudar demais na minha viagem a Santiago. Estou indo passar o reveillon com mais sete amigos e não vejo a hora!

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