Punta del Este não deixou saudades

Inicialmente tive muitas dúvidas se valia a pena ir a Punta del Este considerando o pouco tempo e como fazê-lo. Havia a opção de ter ido no dia anterior e deixar esse último dia de viagem (pegaríamos o vôo às 20h15, no aeroporto de Carrasco, em Montevideu) pra Montevideu. Acabei deixando Punta pro último dia porque o ônibus de volta nos deixaria já no aeroporto, de modo que economizaríamos um deslocamento e o pagamento de um taxi (na ida eu paguei 85 reais, vai saber quanto seria a volta).

Pois 85 reais foi basicamente o que paguei para nós dois irmos a Punta del Este, a 150 km de distância de Montevideu. Isso é pra gente ver como aquele taxi foi caro. Há pelo menos duas empresas que fazem o trajeto, a COT e a COPSA. Fomos de COT, num ônibus confortável, com espaço pras malas. A viagem durou pouco mais de 2h. Ali começava a aporrinhação na cidade. Procuramos pelo lugar onde guardar as malas que, segundo pesquisa prévia, estaria disponível. Achamos o lugar, mas cadê o funcionário ? Sumiu. Perguntamos e disseram que “ele fica por aí, tem que procurar”. O procuramos, crendo que pela descrição seria moleza achá-lo, mas nada. Perguntamos novamente, disseram como ele estaria vestido. Achamos um sujeito no maior bate papo num corredor escondido e perguntamos se era ele. O cara respondeu, sem cara de muitos amigos, num espanhol acelerado falando “propina” e “muchacho”, foi o que consegui entender. Quando ouvi o muchacho, pensei, esse cara tá me sacaneando, pois só ouvia essa expressão de forma meio pejorativa nos filmes.

Bem, deixamos as malas com ele e quando perguntamos quanto era, ele disse que era quanto a pessoa achava justo pagar. Aí liguei as coisas, a “propina” que ele disse era já explicando de cara como funciona, pois propina = gorjeta em espanhol. Só que ele havia respondido tão rapidamente a uma pergunta simples – se era ele quem era responsável pelas malas – que não havia dado tempo de deduzir. Também posteriormente vimos algumas pessoas conversarem entre elas usando o termo “muchacho” e logo vi que era típico da linguagem informal uruguaia, um termo que equivaleria a chamar o outro de “cara”.

Deixamos as malas com o sujeito esquisito, preocupados com o que aconteceria com elas, mas não havia o que fazer, era isso ou voltar pra Montevideu. Bateu a dúvida sobre o que fazer em tão pouco tempo – já compramos a volta pra não haver risco de esgotar, programada pras 16h10. A ideia era chegar ao aeroporto por volta de 18h, pra termos folga pro check-in e possíveis imprevistos. Mais tarde vimos que esse cuidado foi essencial. Ainda eram 13h. Procuramos por city tour, mas uns já partiram e os disponíveis iriam até o pôr do sol, pois todos eles terminam na Casa Pueblo, onde se pode ver o sol se pondo de maneira, dizem, muito bonita.

A mocinha do city tour havia dado a dica de pegarmos um mapa no escritório de turismo, que fica ali mesmo na rodoviária. Mas o lugar estava fechado, embora houvesse um aviso bem grande indicando que deveria estar funcionando. Péssimos serviços, PQP. E isso porque é a rodoviária de um lugar abarrotado de ricaços. Talvez seja mesmo essa a razão, afinal, desde quando rico pega ônibus pra alguma coisa ?

Já da rodoviária é possível ver um dos pontos turísticos clássicos, a escultura “La Mano”, uma mão surgindo de dentro da areia. Muito legal e disputadíssima pra fotos. Demos a sorte de pegar um momento sem muitas pessoas. Mas eu sou burro, esqueci que uma mão tem 5 dedos, talvez na hora estivesse pensando no Lula. Mas foi o polegar que foi cortado. Sério, o que acontece é que o polegar fica tão afastado que não me lembrei de incluí-lo no enquadramento. Luciana também não lembrou, quando tirou a minha. Ventava bastante e era o dia mais frio desde então, com um ceu nublado.

Estava frio demais pra uma caminhada e resolvemos almoçar. Fomos bem atendidos por uma simpática garçonete e comemos bife com fritas muito bem servido, uma porção teria dado pra dois, mas pedimos duas sem saber. Mesma coisa da Argentina, comida sem sal. Mas com sal ficava bom. Perguntamos pra ela qual ônibus pegar pra ir até a Casa Pueblo, ela disse que a melhor opção era pegar um na rodoviária. Lá voltamos. No caminho ainda veio uma golpista tentar me parar, primeiro pedindo um cigarro, depois perguntando de onde eu era e emendando pedidos de dinheiro. Fui meio lerdo pra reagir e Luciana, já ficando mais carioca do que eu, foi esperta e me puxou pra seguirmos, sem dar papo pra vigarista.

Na rodoviária fomos informados pela funcionária da COT que um ônibus estava partindo com destino a Portezuelo, parada para ir até a Casa Pueblo. Nos deu um folheto com os horários dos ônibus de volta. Perguntei quanto tempo de viagem, ela disse no máximo 20 minutos e que teríamos que caminhar um pouco até o local. Perguntei sobre a caminhada, se era longa, ela disse que era pouco, 1 km. Eram 14h e calculei que daria tempo pra ir, tirar umas fotos e voltar antes das 16h, pois um ônibus de volta passaria na parada às 15h15.

Falta de planejamento é mesmo uma merda. Nunca mais deixo as coisas tão flexíveis em lugares que não são tão minúsculos e fáceis de se deslocar assim. Nosso ônibus partiu às 14h15 e foi bem devagar e ainda ficou um tempão parado no terminal de Maldonado, que fica no caminho. O “no máximo 20 min” se transformou em 30 e chegamos às 14h45. O motorista nos indicou onde deveríamos pegar o ônibus pra voltar e pra onde deveríamos seguir. Pensei, deve dar tempo de ir, ver o lugar, tirar uma foto rápida e nos mandar de volta pro ponto. O “pouco, 1 km” se transformou em mais do que isso, andamos pra caramba e nada do lugar chegar. Já eram quase 15h e falei pra voltarmos, ou correriamos o risco de perder o ônibus. Frustração. Luciana estava muito cansada, especialmente de ter que andar em ritmo rápido. Ainda estava frio. Demos meia volta em ritmo bem acelerado e chegamos no ponto às 15h10. Um casal estava lá esperando provavelmente há uns 10 minutos, pois os encontramos voltando da Casa Pueblo quando ainda caminhávamos pra lá. No local há um belo mirante, com vista pra cidade, esse aí da foto.

Deu 15h15 e nada do ônibus vir. 15h30 e começou a bater o desespero. Passou um ônibus e dei graças a deus, mesmo sendo agnóstico. Que ironia, passou direto. FDP. Pensei, deve ser o ônibus de outro horário, sem parada prevista no lugar. Calculei que se ele não passasse até 15h45, perderíamos o ônibus de 16h10 e, consequentemente, arriscaríamos perder o avião, que decolaria de Montevideu às 20h15. Que merda. Na parada fazia muito frio e começou a choviscar. Passou mais um da COT e nada de parar, mesmo com apelos desesperados das demais pessoas que estavam no ponto. Dois caras que estavam na beira da estrada pedindo carona foram bem sucedidos. Sentimos aquela inveja, mas isso nunca estaria em cogitação pra nós, cagões, especialmente com essa gata do meu lado.

Passou mais um, dessa vez da outra empresa, a COPSA. Não parou. Deu 15h45. Fodeu. Mais um ônibus da COT não parou. Umas uruguaias nos perguntaram se estávamos ali há muito tempo, rs. Só 40 minutos. Disseram a elas que “havia várias linhas de ônibus que passavam no local”. PQP, só tem brincalhão nessa cidade, devem ser os ricos que fazem piadas pros pobres dependentes de busão. às 15h50 parou um ônibus da COPSA e acredito que ele só parou após apelos desesperados das pessoas, sabe quando alguém pede resgate e abana desesperadamente as mãos ? Foi mais ou menos assim e o ônibus parou uns 20 metros adiante. Mais tarde, em conversa com o mochileiro Enrico Luzi, soube que aquilo era comum, também aconteceu com ele e só se safou por ter conseguido uma carona. É foda. Fica aí esta valiosa dica, pra ninguém dar este azar.

Fiquei a viagem toda oscilando entre otimismo e pessimismo. É como me auto-defini para Luciana, sou um pessimista-otimista que repete pra si mesmo que as coisas darão errado, pra bater aquele conforto, mas acredito até o fim enquanto há a mínima esperança. O ônibus parou brevemente em Maldonado e, pra minha alegria, chegou a tempo na rodoviária de Punta – faltava um minuto pro nosso ônibus da COT, com destino a Montevideu, partir. Fiquei de cão de guarda ao lado do ônibus enquanto Luciana foi pegar as malas. Dei 50 pesos pra ela dar de gorjeta ao sujeito, equivalente a 5 reais. Pensei, não é muito, mas o cara foi meio displicente, só vou dar pra não ter trabalhado de graça. Lu disse que o cara ficou todo feliz e ainda correu pra abrir o depósito das malas, hauhauahau. Deve estar acostumado a receber só alguns centavos.

E deu tempo ! Assim como a correria que fiz até o Palácio Ducale, no post de veneza, no final as coisas dão certo, tem que acreditar. Mas Punta del Este não pareceu particularmente interessante. Tá certo, não vimos quase nada. Mas o que vimos é uma cidade praiana comum, cara e de deslocamento difícil, onde já se viu ser tão difícil chegar a alguns dos pontos turísticos ? E transporte público de massa, quase não vimos. Faltou ver a ponte ondulada, a península, o Cassino Conrad e, acho, é só.

Pegamos o ônibus e dessa vez chegou pontualmente às 18h, horário previsto, no aeroporto Carrasco. Nos dirigimos ao balcão de check-in e minha identidade, que está mal conservada, foi inicialmente recusada pela funcionária. Não discuti, pois de fato existe essa previsão, documentos têm que estar em bom estado e a foto tem que ser reconhecível. Aquela história de o documento ter que ter no máximo 10 anos de validade é uma mentira, como você pode conferir no artigo 1o do Acordo sobre documentos de viagem dos estados do Mercosul e países associados. A fonte é o Portal Consular do MRE. Se preferir continuar acreditando em papo furado das pessoas, ou informações de agentes de turismo desinformados, boa sorte.

Continuando, não criei caso e mostrei a ela meu passaporte. Já havia levado o documento sabendo que poderia ter problemas com o estado da identidade, não paguei pra ver. Foi a única ocasião de toda a viagem que a identidade não foi aceita de cara e olha que foi solicitada várias vezes. Mas talvez a funcionária acabasse aceitando se eu não tivesse outro documento, pois não pareceu disposta a criar problemas. Feito o check-in, nos dirigimos ao duty free de Carrasco. Soube recentemente que supostamente há uns descontos, entre 10 e 22 %, não sei bem como consegui-los. Pesquise, vale a pena. O que posso garantir com toda certeza é que nas compras em cartão de crédito no Uruguai o IVA, imposto uruguaio sobre a produção, é devolvido aos não-residentes, como nós. Enfim, acaba valendo a pena comprar por lá. Eu me limitei a comprar umas pringles e um perfume que minha irmã pediu. Lu comprou algumas coisinhas de mulher.

Voltamos num vôo também tranquilo e matamos a saudade de nossa querida cama. Nada mais fizemos além de descansarmos, pois no dia seguinte havia o vôo pra Santiago.

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8 respostas para Punta del Este não deixou saudades

  1. Luciana disse:

    Pior que eu percebi, sim, que estava faltando um dedo, mas não o inclui na foto pq tinha uma menina posando nele e vi que vc tinha cortado isso na minha foto. Logo, achei que vc tivesse feito propositalmente pq não fazia questão do quinto dedo. E, se não fez questão na minha foto, não iria fazer questão na sua. Entendeu o racicício complexo? =P

  2. Luciana disse:

    *raciocínio

  3. Gabriela disse:

    Olá, voce poderia me informar sobre o servico de guardar as malas em Punta?? Eu procurei bastante mas nao encontrei nada… Obrigada pela atencao.

    • luademochila disse:

      Respondido no seu e-mail, abraços.

    • Alison disse:

      Olá parabéns pelo Blog! Eu também estou precisando de ondormacoes sobre guardar malas em Punta, pode me passar algo a respeito por favor? Outra coisa, a linha da COT Punta-Montevideo que vcs pegaram é a normal, que tem opção de parada no aero Carrasco? Obrigado!

      • luademochila disse:

        OI, Alison. Tudo bem? Estou em viagem e vou tentar te responder o melhor que conseguir no momento. Você guarda as malas na rodoviária, logo após a entrada você vira à direita e, ao lado do balcão da COT se não me engano há um lugar para guardar bagagem. Porém, o funcionário não fica sempre lá, ele roda a rodoviária e fica batendo papo em algum lugar aleatório. Aí é só perguntar aos funcionários onde ele tá, se precisarem eles anunciam no auto-falante. Não há um preço fixo, funciona na base da gorjeta. Nós demos algo que acho que era equivalente a 5 reais e o cara ficou todo feliz, provavelmente as pessoas dão qualquer trocado. Quanto ao ônibus, nós pegamos a que tem opção de parada no aeroporto. Não se preocupe, se fizer as coisas com tempo, sem ser tudo apertado como fizemos, vai dar tudo certo. Só atente para a observação que fiz sobre os ônibus ao sair da Casa Pueblo. Abraços, boa viagem!

  4. cauhana disse:

    A volta (Casa Pueblo até Montevideu) vocês pagaram diretamente no ônibus ou compraram antes?

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